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Mais de metade da publicidade de influencers não está identificada: o que isto ensina a quem paga a criadores

Brand Insight 22 de Outubro de 2026 10 min de leitura Por Yola Goulart

Mais de metade da publicidade de influencers não está identificada: o que isto ensina a quem paga a criadores · trabalho da The Pear Marketing

Resposta curta: a plataforma portuguesa #Pub analisou 2.113 publicações de 780 influenciadores e concluiu que 52,7% das que eram publicidade não estavam bem identificadas. Os números vêm da própria plataforma, não de uma entidade oficial, mas a regra é antiga: em Portugal, a publicidade tem de ser identificada como tal em qualquer meio (artigo 8.º do Código da Publicidade). A lição para PME: se ofereces um jantar, um tratamento ou um produto a um criador, isso também conta como publicidade, e a marca é corresponsável pela identificação.

Então, imagina que convidas uma criadora de conteúdo da tua cidade para jantar no teu restaurante. Ela gosta, publica um reel lindíssimo e as reservas sobem nessa semana. Ninguém pagou nada, por isso não é publicidade, certo? Errado. Segundo o guia da Direção-Geral do Consumidor, uma refeição oferecida já chega para a publicação ser comunicação comercial.

A 16 de outubro de 2026, um estudo da plataforma #Pub pôs este tema nas notícias: mais de metade da publicidade feita por influenciadores portugueses não estaria identificada. Neste artigo vês o que o estudo diz e o que não diz, as regras que se aplicam em Portugal e o que muda para quem paga ou oferece coisas a criadores, mesmo com um orçamento pequeno.

O que aconteceu

A #Pub (Hashtag Pub) é um projeto sem fins lucrativos que usa inteligência artificial para detetar publicidade não identificada nas redes sociais. O fundador é Diogo Abrantes da Silva. Os primeiros resultados foram noticiados no mesmo dia pela Marketeer e pelo ECO.

DadoValor
Publicações analisadas2.113
Influenciadores780
Publicidade mal identificada52,7%
Perfis alertados147
Denúncias à ASAE40
Fonte: plataforma #Pub, citada pela Marketeer e pelo ECO a 16 de outubro de 2026. Resultados preliminares.

Como funciona, segundo as duas notícias:

  • A ferramenta analisa todos os dias uma amostra aleatória de mais de mil perfis de influenciadores que trabalham em Portugal, com mais de 30 mil seguidores, no Instagram e no TikTok.
  • A IA classifica cada publicação como potencialmente publicitária, publicidade bem identificada ou conteúdo orgânico.
  • Os utilizadores podem concordar ou discordar da classificação. O valor de 52,7% é acompanhado por 484 votos de utilizadores.
  • A plataforma guarda o histórico dos perfis, o que pode ajudar as marcas a perceber com quem estão a trabalhar.

Segundo a Marketeer, 20% das publicações analisadas foram classificadas como publicidade. É dentro desses 20% que mais de metade falhava a identificação. Ao ECO, o fundador defendeu que a publicidade não identificada é imoral para os consumidores.

Gráfico: das 2.113 publicações analisadas pela plataforma #Pub, 20% eram publicidade e 52,7% dessas não estavam bem identificadas; 147 perfis alertados e 40 denúncias à ASAE
Os números são da própria plataforma #Pub e ainda são preliminares.

Um aviso importante sobre estes números

Os números vêm da própria #Pub, não da Direção-Geral do Consumidor nem de outra entidade oficial. A classificação é feita por IA, com votos de utilizadores, e nenhuma das notícias explica como as duas coisas se combinam. Também não sabemos quantas das denúncias deram origem a processos.

Isto não quer dizer que o problema seja inventado. Em fevereiro de 2024, a própria DGC analisou 366 mensagens de 20 influenciadores no Instagram e encontrou irregularidades em 102, que não identificavam a relação comercial com 76 empresas ou marcas, como noticiaram o ECO e a Forbes Portugal. A DGC abriu processos de contraordenação. São dois estudos diferentes, com métodos diferentes, por isso não se comparam as percentagens. Mas mostram o mesmo padrão: a identificação continua a falhar.

Porque é que isto importa (o que diz a lei)

Olha, vou dizer-te uma coisa que muitos donos de negócio não sabem: as regras para influenciadores não são novas. Já existem há décadas e aplicam-se às redes sociais como a qualquer outro meio.

O princípio da identificabilidade

O Código da Publicidade diz no artigo 8.º que a publicidade tem de ser identificada como tal, qualquer que seja o meio de difusão utilizado. O artigo 9.º proíbe a publicidade oculta ou dissimulada. O guia da DGC para influenciadores e anunciantes cita o mesmo artigo 8.º como a base do dever de identificar o conteúdo comercial na internet e nas redes sociais.

O que conta como publicidade

Segundo o guia da DGC, uma publicação é comunicação comercial quando:

  1. Há uma relação comercial com pagamento em dinheiro.
  2. A publicação inclui a oferta de produtos ou serviços, mesmo sem pagamento. O guia dá exemplos como presentes, amostras, convites para eventos, refeições, estadias, experiências, descontos e empréstimo de artigos.
  3. O conteúdo promove produtos ou serviços e tem links ou códigos de desconto.

O ponto 2 é o que mais apanha as pequenas empresas. A permuta, aquele acordo de oferecer um serviço em troca de uma publicação, entra aqui.

Como se identifica

O guia da DGC dá regras práticas, que o advogado Ricardo Henriques, da Abreu Advogados, resumiu num artigo de 2019: a identificação tem de ser clara e estar no início da publicação.

Boa práticaMá prática
#PUB ou PUB no início#PUB só no meio ou no fim
#OFERTA, #PARCERIA ou #PATROCÍNIO consoante o benefícioEsconder a marca entre outras hashtags
Identificar em texto, áudio, foto ou vídeoContar que o seguidor percebe sozinho
Fonte: DGC, Guia para influenciadores e anunciantes.
Quadro com as regras do guia da DGC: identificar no início da publicação com #PUB, usar #OFERTA, #PARCERIA ou #PATROCÍNIO consoante o benefício, e nunca pôr a identificação só no meio ou no fim
A regra que mais se esquece: a identificação vai no início, não escondida no fim da legenda.

A marca também responde

Esta é a parte que interessa a quem paga. O guia da DGC diz que influenciadores, anunciantes e agências são corresponsáveis pelos conteúdos comerciais. E acrescenta que os anunciantes devem garantir que os criadores identificam cada publicação e ter mecanismos de controlo, porque os influenciadores não são necessariamente profissionais de marketing.

Ou seja, se a criadora que convidaste se esquece do #PUB, a responsabilidade não é só dela.

O outro lado

Há críticas legítimas a fazer a este tipo de estudo, e convém tê-las presentes antes de partilhar o número dos 52,7% como verdade absoluta.

  • A metodologia não é pública nas notícias. Sabemos que há IA e votos, mas não sabemos a margem de erro nem como se decide um caso duvidoso.
  • A amostra só inclui perfis com mais de 30 mil seguidores. Os microcriadores locais, com quem as PME mais trabalham, ficam de fora. Não sabemos se lá o cenário é melhor ou pior.
  • Um alerta público pesa. A plataforma publica alertas diários na conta de Instagram, segundo o ECO. Para um criador ou uma marca, aparecer ali sem ter tido oportunidade de corrigir pode ser injusto se a classificação estiver errada. A plataforma permite contestar a classificação, segundo as duas notícias.
  • Há zonas cinzentas. Uma recomendação espontânea de um produto que a pessoa comprou não é publicidade. O próprio fundador reconhece, segundo a Marketeer, que a falta de identificação torna difícil distinguir uma recomendação espontânea de um conteúdo pago.

Na The Pear achamos que o estudo tem um mérito, mesmo com estas limitações: lembra a toda a gente que o seguidor confia na pessoa que segue. E confiança que se perde por uma publicidade escondida não se recupera com um post de desculpas.

O que uma pequena empresa pode copiar

Faz sentido trabalhar com criadores. Só que fazer isto bem dá pouco trabalho a mais e protege-te de muito. Estas são as regras que damos aos nossos clientes:

  1. Trata qualquer oferta como publicidade. Um jantar oferecido num restaurante, uma limpeza de pele numa clínica, uma noite numa casa de turismo: se há contrapartida, a publicação deve ser identificada.
  2. Põe tudo por escrito, mesmo que seja simples. Um email ou uma mensagem com o que ofereces, o que esperas, quando sai e a obrigação de identificar no início com #PUB ou #OFERTA. Não precisas de um contrato de vinte páginas.
  3. Revê antes de publicar. Pede para ver a legenda ou o vídeo antes de sair. É a forma mais simples de cumprir o dever de controlo que o guia da DGC atribui ao anunciante.
  4. Usa as ferramentas da plataforma, além da hashtag. O rótulo de parceria paga do Instagram ajuda, mas a regra portuguesa pede identificação clara no início da publicação. Na dúvida, usa as duas coisas.
  5. Cuidado redobrado em setores sensíveis. O guia da DGC tem regras próprias para crédito, alegações de saúde, bebidas alcoólicas e menores. Uma clínica, uma intermediária de crédito ou um bar têm de rever cada frase.
  6. Escolhe criadores que já identificam bem. Antes de fechar, vê as últimas publicações pagas da pessoa. Se nunca aparece um #PUB, é um sinal.
  7. Mede como medes um anúncio. Código de desconto próprio, link com UTM ou uma pergunta simples na reserva: onde nos conheceu? Sem isto, não sabes se a parceria compensou.

Exemplo prático para uma imobiliária: se convidas uma criadora de decoração a fazer um vídeo num imóvel que tens à venda, e lhe ofereces alguma coisa em troca, a publicação começa com #PUB ou #PARCERIA e identifica a agência. Fica mais honesto, e quem vê sabe com o que está a contar.

Checklist para PME que trabalham com influenciadores: tratar ofertas como publicidade, acordo por escrito, rever antes de publicar, identificar no início, cuidado em setores sensíveis, medir com código próprio
Sete regras simples para trabalhar com criadores sem correr riscos desnecessários.

Se queres perceber se o marketing de influência faz sentido para o teu negócio, temos um artigo antigo sobre marketing de influência. E se precisas de alguém que trate da estratégia e da produção de conteúdo, vê como funciona a nossa gestão de redes sociais. Se o teu setor tem regras de publicidade próprias, como a saúde, confirma-as antes de contratar criadores.

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Perguntas frequentes

Como identificar publicidade nas redes sociais em Portugal?

Segundo o guia da Direção-Geral do Consumidor, a relação comercial deve ser identificada de forma clara no início da publicação, com #PUB ou PUB. Se o benefício for outro, usa #OFERTA, #PARCERIA ou #PATROCÍNIO. Pôr a identificação só no meio ou no fim é considerado má prática.

Oferecer um produto a um influenciador também é publicidade?

Sim. O guia da DGC diz que a publicação é comunicação comercial quando inclui a oferta de produtos ou serviços, mesmo sem pagamento em dinheiro. Isso inclui refeições, estadias, tratamentos, amostras e descontos.

Quais são as regras para influenciadores em Portugal?

A base é o artigo 8.º do Código da Publicidade, que obriga a identificar a publicidade em qualquer meio, e o artigo 9.º, que proíbe a publicidade oculta. A DGC publicou um guia para influenciadores e anunciantes com regras práticas e cuidados extra para crédito, saúde, álcool e menores.

A marca é responsável se o influenciador não identificar a publicidade?

Segundo o guia da DGC, influenciadores, anunciantes e agências são corresponsáveis pelos conteúdos comerciais. O anunciante deve garantir que cada publicação é identificada e ter formas de controlo. Para casos concretos, fala com um jurista.

Os 52,7% do estudo são um número oficial?

Não. O valor vem da plataforma #Pub, que usa IA e votos de utilizadores, e foi noticiado pela Marketeer e pelo ECO a 16 de outubro de 2026. Uma fiscalização oficial da DGC em 2024 encontrou irregularidades em 102 de 366 mensagens, com outro método.

Fontes

Escrito por

Yola Goulart, equipa The Pear Marketing

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